A postagem de hoje sofreu algumas influências. Gostaria de registrá-las aqui: alguns textos de minha amiga e ex-colega de trabalho Luciana, e de meu amigo e ex-colega de faculdade Fabrício. São dois bons escritores, blogueiros e camaradas. Recomendo cegamente. A terceira influência na elaboração deste texto é uma música que descobri há pouco tempo e que rapidamente caiu no meu gosto, “After Midnight”, do último álbum do blink-182. A música, aliás, foi minha trilha sonora enquanto escrevia; deixo seu clipe oficial, logo abaixo, como opção para quem quiser ler enquanto ouve. Ela, claro, é a recomendação de hoje.
“I can’t keep your voice out of my head
All I can hear are many echoes of
The darkest words you said
And it’s driving me crazy“
(blink-182 – After Midnight)
Eu abro a janela. Até que o dia está bonito. Ironicamente bonito. Parece que tenta menosprezar a minha solidão matutina. Eu olho de volta para a cama, alguns raios de sol permeando o lençol enrugado. Não, é claro que voce não está lá. Já esteve, mas esse tempo é o passado, e o passado é o único tempo que nunca mais terei. Não gosto desse tempo.
Tempo… Quanto será que me resta? Olho mais uma vez pela janela. Eis o sol se esforçando para me afogar em luz. Honestamente, quanto tempo sem você? Quanto será que realmente suporto e quanto será que terei de suportar? Não sou nenhum gênio, mas é evidente que sei que dois menos um é zero. E, se agora só resta o zero, de que adianta se multiplicarem os dias à minha frente? Diz, de que adianta, se tudo vezes zero é igual a nada?
Caminho para fora, a única saída possível. Vejo-me preso em outros cômodos. São tantas saídas, tantas portas, mas elas simplesmente me levam a outros cômodos. Fico claustrofóbico na sua ausência, porque a sua presença é forte demais. Em cada canto, tenho pelo menos umas três ou quatro memórias suas – nem ouso fechar os olhos! Sorrisos, filmes, sonecas, até pipoca sob almofadas do sofá eu encontro. Encontro você, a esmo, em portarretratos quadrados, redondos, pequenos, grandes… Só para te perder entre os meus dedos, que se fecham instintivamente. Só há ar em minhas mãos.
E, na saída das ruínas da minha fria e ensolarada acrópole, está a última porta, a da entrada. Irônico, mais uma vez. Hoje, ela é a porta da saída. Mas foi, por muito tempo, a da entrada. Muita coisa mudou. Que fez o tempo comigo? Que fiz eu com todos os raios que o sol me deu, com as rugas nos lençóis que colecionava com você?
Saio pela rua, não há lençóis, não há pipoca, não há você. Mas isso é tudo que vejo. Cenas bobas. Ameaço sorrir, mas, antes disso, os olhos já estão marejados. Marejados demais. Escorrem algumas gotas impertinentes, que morrem em meus lábios ressecados. Ressecados pelo sol, pela falta do seu beijo. E talvez por muito sal na pipoca. Você sabe, sempre fui exagerado. Sempre dormi até tarde demais, raramente terminava um parágrafo antes da décima linha, colocava muito sal, e ouvia pouco.
Lá fora, não sei o que as poucas pessoas que me enxergam realmente veem. Será que elas veem o que estou vendo? Não, não. Ninguém tem as lembranças que tenho. Ou melhor, que nós dois temos, se você ainda não esticou o lençol das suas memórias. Tente se lembrar, ou pelo menos, não tente se esquecer. Ainda sinto que vivo em você – fraco, mas vivo -, assim como você vive em mim. Em casa, em cada fraco canto, uma fração do seu encanto, uma fagulha que clareia tanto. Até depois da meia-noite, até o próximo raio de sol.
Gui, muito bom! Parabéns… Achei que você ia escrever um texto bem parecido com o meu. Até me surpreendi quando vi que praticamente não tem nada a ver; mas entendo da onde veio sua inspiração. De qualquer forma, obrigado pelo crédito. É verdade, dois menos um é zero e não adianta multiplicar. Parabéns de novo.
Abraços!