Já faz tanto tempo. Um ano? Não… O segundo ano deve estar mais próximo do que o último e primeiro aniversário do acontecido. Dezenove meses. Longos, sim, bem longos. Desço a janela do carro, enquanto dirijo. O ar condicionado do carro não se compara ao vento fresco deslizando sobre meu rosto com delicadeza. Meu cabelo curto tenta se agitar, mas sua natureza não lhe permite saborear o vento – como os seus cabelos faziam, por exemplo. Ah, aqueles longos cabelos dourados, quando esvoaçavam! Que memória!
A estrada é longa e cheia de retas. Não sei se gosto. Por um lado, é bom, pois dá para acelerar mais; por outro, o tédio é tão grande que quase começo a conversar com você, de novo. Mas não haveria resposta, se o fizesse. Nenhuma resposta. O banco do passageiro nunca significou nada, para mim; hoje, sou capaz de descrevê-lo como o trono da solidão. Ou, talvez, como o trono da rainha da solidão, já que o rei se assenta à sua esquerda, logo atrás do volante.
O sol começa a se por, bem à frente. Ainda bem que trouxe os óculos escuros. Com a desculpa de me defender do sol, agora frontal, os óculos agora são a muralha que esconde duas fábricas pouco produtivas de lágrimas. Lágrimas solitárias ameaçam se jogar dos meus olhos em direção ao nada, a onde não posso resgatá-las. E se jogam. E se tornam irresgatáveis. Assim como meu amor.
Não quero pensar no fatídico dia. Não, prometi a mim mesmo que eternizaria todas as outras memórias minhas, suas, nossas. Não posso fazer nada, agora, como não pude, lá… Mil memórias. Sinto alguns pingos que não minhas lágrimas. Hora de subir o vidro; logo vai chover. Em não menos de dez minutos, a garoa começa a engrossar, mas não diminuo. O sol se despede pela última vez e se recolhe. Não tiro os óculos.
Algumas colinas suaves, curvas comuns e retas entediantes depois, vejo-me chegando. Outra cidade, sempre que a revejo. Está bem, é apenas a terceira vez que venho aqui, mas, ainda assim, a encontro diferente, a meus olhos, cada vez que a vejo. Uma coisa não muda, contudo: o significado da cidade.
Finalmente tiro os óculos. A chuva aperta. Sei bem onde vou. Cerca de quinze minutos até meu destino. Minha memória volta a me pregar as peças diárias, fazendo-me ouvir sua voz ou sentir seu perfume. Depois, começam as sessões de curta-metragens, das quais você sempre é protagonista. Ah, aquele seu sorriso bobo e feliz… Tão simples. Outras poucas lágrimas tentam se formar, mas poucas realmente transbordam para fora de meus olhos. Com o tempo, tenho compreendido a arte do autocontrole. As suas memórias… Elas não me dominam, mas me distraem. Cruzo um sinal vermelho.
Outro carro vem na rua que cruza minha via. Não vem rápido. Mas vem. Percebo minha desatenção e, instintivamente, busco acelerar, como se pudesse fazer algo em um segundo com minha máquina de uma tonelada. O outro motorista é mais hábil e desvia heroicamente, não sem depois buzinar ferozmente e vociferar impropérios. Continuo. Sangue frio, coração levemente mais disparado. Onde estava? Sim, você, em um jardim, rodopiando entre flores amarelas, lilás, brancas. É assim que vejo onde está, agora.
Paro o carro. Cheguei. Eis o muro comprido, que se estende por todo o grande quarteirão, perimetrando-o. E um dos portões em clássicas barras de metal, com detalhes desprezíveis em cima, que permanece estrancado durante a maior parte do dia. Respiro fundo. Ainda chove forte. Olho para o banco de trás, apanho o florido e colorido ramalhete. Abro a porta. Saio, fecho-a. Atravesso o portão. Não sei se ativei o alarme. Não faz diferença, agora.
Encontro meu destinatário na terceira viela à esquerda. Mármore branco, bonito. Ajoelho-me, deposito suavemente as flores sobre a lâmina d’água que se forma sobre o mármore. Estou encharcado, dos pés à cabeça. Olho para baixo. Por alguma razão estranha, imagino que horas sejam. Dou uma bronca em mim mesmo, “de que importa?”. Levanto-me. Ponho as mãos na cintura, e, depois, na cabeça. Em seguida, eu me agacho. Toco o mármore com a mão esquerda. Sinto o anel no dedo anelar encostar no mármore. “Feliz aniversário”, penso comigo.
A música de hoje é “Stuck In A Moment”, do U2.