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The first time I saw you, it felt like coming home
If I never told you, I just want you to know
You had me from hello
(Bon Jovi – You Had Me From Hello)

As ruas do meus bairro têm muitas árvores. Árvores que quase formam um túnel em alguns pontos. Eu gosto um pouco de caminhar por aqui. Sozinho. Com fones de ouvido – sempre pulando as músicas que me lembram meu ex-alguém. Nada de love songs que a gente imortalizou por cinco minutos. Ou melhor, que eu imortalizei, que me trazem pensamentos dela. Músicas que não estou certo se ela ainda ouve. Ou já ouviu sem mim. Enfim, evito ao máximo passar pelas mesmas ruas.

Não quer dizer que eu seja fraco. Quer dizer, eu sou… Mas só um pouco. Faço isso para não macular as memórias que guardo dela. Não acho justo passar a relacionar essa ou aquela música com lugares ou pessoas que tentam me fazer esquecê-la sutilmente. Você sabe como é… As árvores, a rotina, o perfume das flores, as ruas, as candidatas a amores de verão, os prédios, a chuva, todos têm inveja dela e querem ocupar o espaço por ela deixado. Mas eu não deixo. E pulo a próxima música. E a próxima. Ouço uma. Pulo outra. Ouço essa, pulo as duas seguintes. E assim vai até o dia em que ela magicamente voltar. Enquanto isso, vou passar meu tempo e as nossas músicas.

Recomendo “Ana’s Song”, da banda  Silverchair.

Flores

Já faz tanto tempo. Um ano? Não… O segundo ano deve estar mais próximo do que o último e primeiro aniversário do acontecido. Dezenove meses. Longos, sim, bem longos. Desço a janela do carro, enquanto dirijo. O ar condicionado do carro não se compara ao vento fresco deslizando sobre meu rosto com delicadeza. Meu cabelo curto tenta se agitar, mas sua natureza não lhe permite saborear o vento – como os seus cabelos faziam, por exemplo. Ah, aqueles longos cabelos dourados, quando esvoaçavam! Que memória!

A estrada é longa e cheia de retas. Não sei se gosto. Por um lado, é bom, pois dá para acelerar mais; por outro, o tédio é tão grande que quase começo a conversar com você, de novo. Mas não haveria resposta, se o fizesse. Nenhuma resposta. O banco do passageiro nunca significou nada, para mim; hoje, sou capaz de descrevê-lo como o trono da solidão. Ou, talvez, como o trono da rainha da solidão, já que o rei se assenta à sua esquerda, logo atrás do volante.

O sol começa a se por, bem à frente. Ainda bem que trouxe os óculos escuros. Com a desculpa de me defender do sol, agora frontal, os óculos agora são a muralha que esconde duas fábricas pouco produtivas de lágrimas. Lágrimas solitárias ameaçam se jogar dos meus olhos em direção ao nada, a onde não posso resgatá-las. E se jogam. E se tornam irresgatáveis. Assim como meu amor.

Não quero pensar no fatídico dia. Não, prometi a mim mesmo que eternizaria todas as outras memórias minhas, suas, nossas. Não posso fazer nada, agora, como não pude, lá… Mil memórias. Sinto alguns pingos que não minhas lágrimas. Hora de subir o vidro; logo vai chover. Em não menos de dez minutos, a garoa começa a engrossar, mas não diminuo. O sol se despede pela última vez e se recolhe. Não tiro os óculos.

Algumas colinas suaves, curvas comuns e retas entediantes depois, vejo-me chegando. Outra cidade, sempre que a revejo. Está bem, é apenas a terceira vez que venho aqui, mas, ainda assim, a encontro diferente, a meus olhos, cada vez que a vejo. Uma coisa não muda, contudo: o significado da cidade.

Finalmente tiro os óculos. A chuva aperta. Sei bem onde vou. Cerca de quinze minutos até meu destino. Minha memória volta a me pregar as peças diárias, fazendo-me ouvir sua voz ou sentir seu perfume. Depois, começam as sessões de curta-metragens, das quais você sempre é protagonista. Ah, aquele seu sorriso bobo e feliz… Tão simples. Outras poucas lágrimas tentam se formar, mas poucas realmente transbordam para fora de meus olhos. Com o tempo, tenho compreendido a arte do autocontrole. As suas memórias… Elas não me dominam, mas me distraem. Cruzo um sinal vermelho.

Outro carro vem na rua que cruza minha via. Não vem rápido. Mas vem. Percebo minha desatenção e, instintivamente, busco acelerar, como se pudesse fazer algo em um segundo com minha máquina de uma tonelada. O outro motorista é mais hábil e desvia heroicamente, não sem depois buzinar ferozmente e vociferar impropérios. Continuo. Sangue frio, coração levemente mais disparado. Onde estava? Sim, você, em um jardim, rodopiando entre flores amarelas, lilás, brancas. É assim que vejo onde está, agora.

Paro o carro. Cheguei. Eis o muro comprido, que se estende por todo o grande quarteirão, perimetrando-o. E um dos portões em clássicas barras de metal, com detalhes desprezíveis em cima, que permanece estrancado durante a maior parte do dia. Respiro fundo. Ainda chove forte. Olho para o banco de trás, apanho o florido e colorido ramalhete. Abro a porta. Saio, fecho-a. Atravesso o portão. Não sei se ativei o alarme. Não faz diferença, agora.

Encontro meu destinatário na terceira viela à esquerda. Mármore branco, bonito. Ajoelho-me, deposito suavemente as flores sobre a lâmina d’água que se forma sobre o mármore. Estou encharcado, dos pés à cabeça. Olho para baixo. Por alguma razão estranha, imagino que horas sejam. Dou uma bronca em mim mesmo, “de que importa?”. Levanto-me. Ponho as mãos na cintura, e, depois, na cabeça. Em seguida, eu me agacho. Toco o mármore com a mão esquerda. Sinto o anel no dedo anelar encostar no mármore. “Feliz aniversário”, penso comigo.

A música de hoje é “Stuck In A Moment”, do U2.

After Midnight

A postagem de hoje sofreu algumas influências. Gostaria de registrá-las aqui: alguns textos de minha amiga e ex-colega de trabalho Luciana, e de meu amigo e ex-colega de faculdade Fabrício. São dois bons escritores, blogueiros e camaradas. Recomendo cegamente. A terceira influência na elaboração deste texto é uma música que descobri há pouco tempo e que rapidamente caiu no meu gosto, “After Midnight”, do último álbum do blink-182. A música, aliás, foi minha trilha sonora enquanto escrevia; deixo seu clipe oficial, logo abaixo, como opção para quem quiser ler enquanto ouve. Ela, claro, é a recomendação de hoje.

I can’t keep your voice out of my head
All I can hear are many echoes of
The darkest words you said
And it’s driving me crazy

(blink-182 – After Midnight)

Eu abro a janela. Até que o dia está bonito. Ironicamente bonito. Parece que tenta menosprezar a minha solidão matutina. Eu olho de volta para a cama, alguns raios de sol permeando o lençol enrugado. Não, é claro que voce não está lá. Já esteve, mas esse tempo é o passado, e o passado é o único tempo que nunca mais terei. Não gosto desse tempo.

Tempo… Quanto será que me resta? Olho mais uma vez pela janela. Eis o sol se esforçando para me afogar em luz. Honestamente, quanto tempo sem você? Quanto será que realmente suporto e quanto será que terei de suportar? Não sou nenhum gênio, mas é evidente que sei que dois menos um é zero. E, se agora só resta o zero, de que adianta se multiplicarem os dias à minha frente? Diz, de que adianta, se tudo vezes zero é igual a nada?

Caminho para fora, a única saída possível. Vejo-me preso em outros cômodos. São tantas saídas, tantas portas, mas elas simplesmente me levam a outros cômodos. Fico claustrofóbico na sua ausência, porque a sua presença é forte demais. Em cada canto, tenho pelo menos umas três ou quatro memórias suas – nem ouso fechar os olhos! Sorrisos, filmes, sonecas, até pipoca sob almofadas do sofá eu encontro. Encontro você, a esmo, em portarretratos quadrados, redondos, pequenos, grandes… Só para te perder entre os meus dedos, que se fecham instintivamente. Só há ar em minhas mãos.

E, na saída das ruínas da minha fria e ensolarada acrópole, está a última porta, a da entrada. Irônico, mais uma vez. Hoje, ela é a porta da saída. Mas foi, por muito tempo, a da entrada. Muita coisa mudou. Que fez o tempo comigo? Que fiz eu com todos os raios que o sol me deu, com as rugas nos lençóis que colecionava com você?

Saio pela rua, não há lençóis, não há pipoca, não há você. Mas isso é tudo que vejo. Cenas bobas. Ameaço sorrir, mas, antes disso, os olhos já estão marejados. Marejados demais. Escorrem algumas gotas impertinentes, que morrem em meus lábios ressecados. Ressecados pelo sol, pela falta do seu beijo. E talvez por muito sal na pipoca. Você sabe, sempre fui exagerado. Sempre dormi até tarde demais, raramente terminava um parágrafo antes da décima linha, colocava muito sal, e ouvia pouco.

Lá fora, não sei o que as poucas pessoas que me enxergam realmente veem. Será que elas veem o que estou vendo? Não, não. Ninguém tem as lembranças que tenho. Ou melhor, que nós dois temos, se você ainda não esticou o lençol das suas memórias. Tente se lembrar, ou pelo menos, não tente se esquecer. Ainda sinto que vivo em você – fraco, mas vivo -, assim como você vive em mim. Em casa, em cada fraco canto, uma fração do seu encanto, uma fagulha que clareia tanto. Até depois da meia-noite, até o próximo raio de sol.

Tem uma banda que gosto. É mais ou menos no estilo “somos voltados ao público adolescente”, mas diferentemente boa. Claro, sou parcial ao falar de uma das minhas bandas favoritas, The All-American Rejects (vulgo TAAR para os mais chegados). Confesso que algumas músicas podem passar como bobas aos ouvidos de alguns. Contudo, há ritmos que envolvem, além de um vocal ímpar e até uns clipes bem interessantes. É, não será a melhor banda do mundo, mas, depois de ficar um tempo sem ouvir TAAR… Quando volto a fazê-lo, suas músicas parecem-me tão boas quanto antes, tão gostosas de ouvir quanto eram – o que não acontece com vários artistas por aí.

Resolvi eleger meu próprio ranking da banda, com as dez melhores, de acordo com a minha opinião. Vale dizer que nem todas as faixas têm um clipe oficial (como a minha primeira colocada, infelizmente).

#10 THE LAST SONG

Para abrir o top10, “The Last Song”, com seu comecinho bem do jeito que eu curto, com pouco fundo para o vocalista (deve haver algum termo técnico para isso).

#09 TOP OF THE WORLD

Não que as outras não tenham esse perfil, mas “Top Of The World” tem uma carinha de trilha sonora… E provavelmente é a mais agitada, entre as aqui listadas.

#08 STRAITJACKET FEELING

“Straitjacket Feeling” evoca basicamente os mesmos sentimentos da minha segunda colocada -mas, eu diria, em em menor proporção. Muito boa.

#07 MOVE ALONG

Quer sentir bem a voz do vocalista Tyson Ritter? “Move Along”.

#06 P.S. I LOVE YOU

Composição bem marcada pelo ritmo, letra bem simples… Essa é “P.S. I Love You”.

#05 IT ENDS TONIGHT

“I can’t explain what you can’t explain”. – “It Ends Tonight”.

#04 GIVES YOU HELL

Um clássico, talvez uma das mais famosas do grupo, “Gives You Hell” foi uma das tristes vítimas de um mau dia do Glee – nada que se compare à original.

#03 I WANNA

“I Wanna” é mais agitada, animada e vibrante. Seu ritmo rápido envolve, bem como a letra, o refrão. Muito boa pedida, especialmente para quando se pensa no crush.

#02 MONA LISA (WHEN THE WORLD COMES DOWN)

A minha medalha de prata fica para a calma e quase deprê “Mona Lisa (When The World Comes Down)”. Ao ouvi-la, dá para lembrar, com facilidade, de alguém que cause fortes saudades.

#01 BACK TO ME

A primeira de todas é “Back To Me”. Não sei bem quando a conheci, mas tenho certeza absoluta que a gravei na memória por conta de uma amiga que fiz em 2010, a maior fã (não-histérica) de TAAR. Geralmente me lembro dela, ex-companheira de metrô, ônibus e risadas, quando ouço esta.

As recomendações de hoje… Preciso dizer alguma coisa?

“Pra sempre, não”

Andei rascunhando um poema no celular no final de novembro. Ei-lo aqui: “Pra sempre, não”.

Não há solo pra esperança brotar
Não há como escrever roteiro algum
Tentei multiplicar, mas sou só o um
Nada que eu diga vai fazer voltar

Na ânsia de reaver o que foi meu
Só vejo barreiras e mais barreiras
Aqui, luto uma luta traiçoeira
Lembrando dos lindos carinhos teus

E nesse fogo que crepita em vão
Eu despejo meu sangue e meu suor
Provando que nada faço melhor
Do que dar voz a este meu coração

A manhã é azul, mas eu não sou
As cores correm e escorrem de mim,
Converto-me em negrume opaco, enfim
Sem o arco-íris da chuva deste amor

E o tempo, que me assalta à mão armada,
Me faz velho se eu não tiver você
Faz cansado por eu tanto querer
O que ele me levou: a tua chegada

Somente memórias não servem, não
O que é real tem de ser de corpo e alma
Pra juntar sentidos, risos e palmas,
Cantar em dueto a mesma canção.

Mais uma vez, o som fica por conta de James Morrison: “The Pieces Don’t Fit Anymore”.

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